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nov
11

Flanelinhas: entre a necessidade e o crime

Desde as recentes prisões de flanelinhas, as discussões sobre o papel que estes representam na sociedade e na organização urbana levantou questões. Afinal, os flanelinhas prestam um serviço ou são apenas criminosos por atentar contra o direito público às ruas?

Juliette Vanessa

Quem nunca passou ou conhece alguém que tenha passado por uma situação assim: sofrer ameaças de flanelinha por não querer pagar o preço exigido, precisar pagar antecipadamente, o flanelinha deixar o carro sem os cuidados ou ter o carro danificado por um deles como castigo por não concordar com os termos negociados? Assim, os flanelinhas tornam-se mal vistos por quase toda a sociedade.

Ditos como inconvenientes, que se apoderam do direito público de estacionar onde e como quiser, cobrando taxas que não deveriam ser cobradas. Embora, para muitos, essa profissão não devesse existir, a opção por deixar o carro aos cuidados do flanelinha acaba sendo a escolhida, devido ao buraco deixado pelo Estado na garantia da segurança e da organização do trânsito. Quanto aos flanelinhas, evidencia-se por parte de alguns um abuso de poder do título suposto de responsáveis pela rua, acompanhado por práticas extorsivas. O fato é que existem pais de família entre os flanelinhas, mas também existem criminosos. Não é crime auxiliar motoristas e proteger carros, e cobrar por isso, mas ameaçar e constranger por um serviço não regulamentado e, às vezes nem requerido, é.

O erro aparece, por outro lado, quando a parcela de flanelinhas que são trabalhadores honestos e que, excluídos socialmente, encontraram neste serviço um meio de sobrevivência são julgados como criminosos, impossibilitados de trabalhar ou tratados com discriminação. No Recife, desde a prisão do flanelinha Fabrício Barros de Souza em 23 de agosto de 2011, os flanelinhas trabalham com temor.

Veja aqui mais notícias sobre a prisão de Fabrício.

Segundo os jornais, Fabrício teria cobrado 5 reais pela Zona Azul na Rua da Moeda e o cliente o teria conduzido até a delegacia, onde o acusou de extorsão.  A visão das pessoas com relação aos flanelinhas, após o acontecido, não melhorou para o lado deles. As pessoas aumentaram as críticas para a prefeitura sobre alguns e se sentiram motivadas a expressar o seu desgosto com esse trabalho. A partir daí, entre eles reside o temor em relação a um boato de que o prefeito proibiria o trabalho dos flanelinhas em 2012.

Além disso, os jornais privilegiaram a versão do cliente, que é policial civil. O flanelinha Jeová Bezerra da Silva, que entrou em contato com Fabrício depois do incidente, afirma que o cliente se adiantou em tratá-lo mal, que respondeu também com agressividade. “Ele disse que não cobrou 5 reais como saiu em vários jornais. Ele disse que a zona azul era 2 reais e se o cara não quisesse por 2 reais fosse em qualquer outro canto. Por isso mesmo, eu achei que ele foi um pouco agressivo”.

Manuela César da Silva, cozinheira de um bar na rua da Moeda, presenciou a cena e também confirma que Fabrício teria cobrado 2 reais e não 5 como os jornais divulgaram. Este seria o valor recorrente cobrado entre os flanelinhas na Zona Azul. Além disso, ela afirma também que o cliente teria insultado Fabrício de “macaco”, que se prontificou a ir para a delegacia atrás de defesa contra as acusações preconceituosas. Outra flanelinha, Tereza Cristina, diz ter visto o cliente ter dado tapas no peito do rapaz.

       “Fabrício cobrou 2 reais”, disse Manuela

Foto: Danilo Aguiar                                                       

Fabrício permaneceu preso por dois dias no Cotel, não voltou a trabalhar na mesma região e não é mais visto por lá. Os flanelinhas da região ficaram taxados pela forma como a imprensa divulgou o acontecido, a “Máfia dos flanelinhas”, criminalizando todos. O flanelinha Jeová Bezerra, 42 anos, trabalha na Rua do Paço Alfândega e discorda da forma como foi relatado os fatos. “Porque a imprensa só ouve o lado do proprietário do carro, a imprensa nunca chega aqui pra perguntar como é o dia-a-dia da gente, como é o tratamento. É que nós somos sempre discriminados e é com tudo! Mesmo se você tiver certo, a imprensa não escuta o lado dos flanelinhas!”

Veja aqui o vídeo com os depoimentos

Eles sofrem constantemente discriminações, vistos como trombadinhas ou donos da rua. Jeová conta casos, por exemplo, de clientes que perguntam a funcionários do Paço Alfândega, localizado na rua em que ele trabalha, se ele é de confiança. A partir disso, hoje ele trabalha com a flanela na mão para ser reconhecido como flanelinha e não como ladrão de carros. A flanelinha na mão é o único meio deles se identificarem, já que eles não possuem mais o crachá do último cadastramento.  Essa discriminação parte também segundo o consentimento das mídias: “eu vi como Geraldo Freire e Graça Araújo falam: ‘esses marginais que se dizem flanelinha, que querem mandar na rua’”. Assim observa Jeová, que também se defende: “a gente não manda na rua, quem manda na rua é o povo! Agora, a gente precisa viver, é questão de bom senso!”

Tereza Cristina da Silva, 74 anos, trabalha na Rua Madre de Deus, no Recife Antigo, há 25 anos. Chamada de “vovó flanelinha”, ela é um exemplo de que o trabalho dos flanelinhas pode ser honesto e não criminoso. Evidencia a existência de uma maioria de flanelinhas que são taxados por uma minoria que praticam extorsão, ameaças e desrespeito ao cidadão. Há até clientes que deixam a chave do carro e pertences de valor com flanelinhas porque confiam em sua honestidade. Muitos realmente cuidam dos carros, evitam uma batida, que alguém os arranhe ou roube peças.

Tereza Cristina, 74 anos, flanelinha.

Foto: Danilo Aguiar

Veja aqui como agem os flanelinhas em Recife

O cliente Marcos Lopes, perguntado sobre o que acha do trabalho dos flanelinhas, diz:  “é totalmente irregular e eles são chatos, eles falam como se fossem os donos da rua: ‘ estaciona assim, bota assim, que aqui cabe mais carro’. Eu acho muito chato isso, ter que pagar a uma pessoa que não tem nada a ver com a rua. Se ainda fosse o dono da casa  poderia cobrar estacionamento, mas não uma pessoa que vem lá num sei de onde e diz ‘essa rua é minha’ e cobra 5 reais de cada.” Ele conta, ainda,  que evita ir para o Recife de carro  por causa disso e que já chegou a pagar 15 reais para um flanelinha que cobrou esse preço. “Eu acho isso um abuso!”. Ainda assim, ele admite a importância dos flanelinhas caso se satisfaça a necessidade de que os órgãos públicos regulamentem e organizem a profissão.

Não há nenhuma associação que defenda e/ou organize os interesses dos flanelinhas. A única que já houve não foi conduzida com a devida eficiência e, por conseguinte, acabou. Assim, não há uma organização entre eles que consiga levar à sociedade esclarecimento sobre medidas que podem melhorar a insegurança social contra os flanelinhas, como um novo cadastramento.

A maioria dos flanelinhas confirmaram que em dia de eventos acontece extorsão. Mas os que fazem isso seriam vindos de fora, que vivem de aproveitar os eventos em várias regiões do Recife, cobrando 5, 10 e até 15 reais por uma vaga, segundo os entrevistados. Os flanelinhas locais, sem aparato de qualquer autoridade para defender seu território, não podem evitar essa prática de extorsão por parte dos flanelinhas oportunistas e desconhecidos.  Eles defendem a necessidade de um regulamento ou novo cadastramento que garanta o pagamento apenas aos que são do território, estes seriam responsabilizados por tudo que acontecesse na região no que se refere aos carros, podendo ser identificados e localizados através do cadastro e do crachá. Esta medida só funcionaria junto com o apoio da PM em afastar os flanelinhas oportunistas e garantir segurança para os flanelinhas locais. Além disso, as constantes brigas entre flanelinhas pelo território causa insegurança também aos habitantes e funcionários de estabelecimentos próximos. Alexandre Augusto, garçom de um bar na Rua da Moeda, é testemunha dessas questões e defende também a necessidade de uma organização do trabalho deles, “tinha que ter uma fiscalização para organizar o ponto de cada um, para eles se organizarem e viverem tranqüilos.”

(https://moedaoutrolado.wordpress.com/2011/11/17/o-ultimo-cadastramento-de-flanelinhas/)

QUANDO E COMO FOI O ÚLTIMO CADASTRAMENTO?

O último cadastramento aconteceu no Tavares Buril, os flanelinhas receberam crachás e eram responsabilizados pela área demarcada que tomariam conta. Quaisquer incidentes como uma cobrança exorbitante, flanelinhas que fogem com o troco do dinheiro, ameaças ou problemas com o carro; eles poderiam ser denunciados segundo a área do incidente ou da identificação do crachá que carregavam. No entanto, o cadastramento não foi levado adiante em todas as regiões necessárias, nem abrangendo novos flanelinhas e, sobretudo, não veio acompanhado de medidas que garantissem a autoridade desses flanelinhas na região. Sendo assim, não foi eficaz por não impedir a atuação de outros flanelinhas e por não conseguir legitimidade.

Os flanelinhas reclamam que o policiamento que existe não se estende a uma ajuda ao trabalho deles na região. Com a ajuda da PM poderia ser impedido que outros flanelinhas se instalem e realizem práticas como extorsão.  “Policiamento existe, mas o policiamento não fiscaliza e poderia haver uma fiscalização assim, eu acho, junto com a ajuda da polícia”. Comenta Jeová, que lembra que se regulamentasse o responsável da área, a polícia deveria atuar afastando os intransigentes. “É para a polícia vim tirar o cara, num é a gente pagar para o cara sair ou obrigar o cara. Uma vez teve uma briga, discussão aqui com dois flanelinhas, sabe que o policiamento fez? ‘Se brigar vou levar os dois!’.”

Veja a entrevista na íntegra com o flanelinha Jeová: (https://moedaoutrolado.wordpress.com/2011/11/15/entrevista-com-o-flanelinha-jeova-bezerra-da-silva/)

Os guardas da CTTU, por sua vez, também não se envolvem com essa questão, apenas fiscalizam os carros, aplicando multas segundo irregularidades. De noite, não há guardas e a organização das vagas fica a cargo dos flanelinhas. Procurados para uma entrevista, assim declarou a assessoria da CTTU: ”a CCTU não se pronuncia em relação aos flanelinhas. Os flanelinhas são caso de defesa pública e os responsáveis por eles seriam a PM. A CTTU só fiscaliza os carros, nada tem a ver com essas pessoas que trabalham na rua.”

No final das contas, ninguém se responsabiliza pelas arbitrariedades de alguns flanelinhas e não se promove medidas para melhorar o problema, mesmo existindo possibilidades. Apenas se restringem a queixas e prisões. Um novo cadastramento poderia servir como meio da sociedade fiscalizar o serviço dos flanelinhas e assim, melhorar a relação entre eles. Há um projeto na Câmara de Vereadores do Recife que está sendo analisado pela comissão de segurança pública com o objetivo justamente de um novo cadastramento. Mas não se sabe se será aprovado e posto em prática.

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