28
nov
11

A moeda na rua da Moeda

Na Rua da Moeda, bairro do Recife Antigo, clientes e comerciantes dizem o que acham do trabalho dos flanelinhas. Esses também pedem espaço e falam o que pensam da situação

Elisa Jacques

 Atuação de flanelinha na Rua da Moeda

Foto: Danilo Aguiar

“A imprensa só ouve o lado do proprietário do carro, nunca chega aqui pra perguntar como é o dia-a-dia da gente”. “Esses flanelinhas acham que são os donos da rua, ficam querendo nos controlar e extorquir o nosso dinheiro”. De um lado, o depoimento de um flanelinha inconformado pela forma como são representados pela imprensa para a sociedade. Do outro, um cliente indignado com a atuação de flanelinhas na Rua da Moeda, bairro do Recife Antigo, que não o deixam “estacionar em paz”, como o mesmo afirma, e que cobram um “absurdo”- até R$ 15,00 em dias de eventos – para que eles possam guardar o carro.

A cena se repete todos os dias. É por volta das 18 horas, quando acaba o horário de funcionamento da Zona Azul- espaço delimitado  pela prefeitura  e fiscalizado pela Companhia de  Trânsito e Transporte Urbano(CTTU),  para organizar as vagas de estacionamento na cidade –  que essas cenas se perpetuam e passam a fazer parte do cotidiano do bairro, já marcado por outros casos semelhantes que terminaram indo parar na delegacia. O mais recente deles é o caso do flanelinha Fabrício Souza, de 21 anos, com grande repercussão na imprensa local no mês de agosto deste mesmo ano.

Área da Zona Azul-Bairro do Recife

 Foto: Danilo Aguiar

Naquela ocasião, o flanelinha foi autuado em flagrante após ser acusado de extorquir um cliente que chegava para estacionar o carro no local, por uma quantia de R$5,00, segundo declaração da vítima. Fabrício não deu sorte e acabou sendo preso pelo cliente, um policial civil aposentando que procurava uma vaga na Rua da Moeda.

Cada lado, uma história. Cada relato, uma revelação e um esclarecimento. Quando não isso, apenas o desabafo de quem fica refém dos flanelinhas e nada pode fazer, ou o protesto desses guardadores de carro pela atenção ao descaso como são tratados pela prefeitura quanto ao local em que exercem a profissão, que outrora tinha até sindicato, mas jamais foi regulamentada. O fato é que os flanelinhas terminam cobrando  sempre um pouquinho a mais, como disseram alguns clientes durante as entrevistas, e diante da cobrança, as pessoas sentem que são feridas nos seus direitos, pelos locais serem públicos, e diante disso declaram-se reféns de um crime sem precedentes.

Durante os meses de setembro e novembro de 2011, a nossa equipe de reportagem passou a frequentar a Rua da Moeda, principalmente nos finais de semana, a fim de observar como os possíveis casos de extorsão aconteciam e, também, ouvir a opinião daqueles que trabalham como guardadores de carro.  Além dos flanelinhas, clientes que estacionavam e saíam do local, e comerciantes que trabalham na rua,  tiveram seus relatos ouvidos e registrados. E a partir de desabafos, declarações e reclamações, contamos os outros lados do que ocorre nas vagas de estacionamento da Rua da Moeda.


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26
nov
11

Flanelinhas: entre a necessidade e o crime

Desde as recentes prisões de flanelinhas, as discussões sobre o papel que estes representam na sociedade e na organização urbana levantou questões. Afinal, os flanelinhas prestam um serviço ou são apenas criminosos por atentar contra o direito público às ruas?

Juliette Vanessa

Quem nunca passou ou conhece alguém que tenha passado por uma situação assim: sofrer ameaças de flanelinha por não querer pagar o preço exigido, precisar pagar antecipadamente, o flanelinha deixar o carro sem os cuidados ou ter o carro danificado por um deles como castigo por não concordar com os termos negociados? Assim, os flanelinhas tornam-se mal vistos por quase toda a sociedade.

Ditos como inconvenientes, que se apoderam do direito público de estacionar onde e como quiser, cobrando taxas que não deveriam ser cobradas. Embora, para muitos, essa profissão não devesse existir, a opção por deixar o carro aos cuidados do flanelinha acaba sendo a escolhida, devido ao buraco deixado pelo Estado na garantia da segurança e da organização do trânsito. Quanto aos flanelinhas, evidencia-se por parte de alguns um abuso de poder do título suposto de responsáveis pela rua, acompanhado por práticas extorsivas. O fato é que existem pais de família entre os flanelinhas, mas também existem criminosos. Não é crime auxiliar motoristas e proteger carros, e cobrar por isso, mas ameaçar e constranger por um serviço não regulamentado e, às vezes nem requerido, é.

O erro aparece, por outro lado, quando a parcela de flanelinhas que são trabalhadores honestos e que, excluídos socialmente, encontraram neste serviço um meio de sobrevivência são julgados como criminosos, impossibilitados de trabalhar ou tratados com discriminação. No Recife, desde a prisão do flanelinha Fabrício Barros de Souza em 23 de agosto de 2011, os flanelinhas trabalham com temor.

Veja aqui mais notícias sobre a prisão de Fabrício.

Segundo os jornais, Fabrício teria cobrado 5 reais pela Zona Azul na Rua da Moeda e o cliente o teria conduzido até a delegacia, onde o acusou de extorsão.  A visão das pessoas com relação aos flanelinhas, após o acontecido, não melhorou para o lado deles. As pessoas aumentaram as críticas para a prefeitura sobre alguns e se sentiram motivadas a expressar o seu desgosto com esse trabalho. A partir daí, entre eles reside o temor em relação a um boato de que o prefeito proibiria o trabalho dos flanelinhas em 2012.

Além disso, os jornais privilegiaram a versão do cliente, que é policial civil. O flanelinha Jeová Bezerra da Silva, que entrou em contato com Fabrício depois do incidente, afirma que o cliente se adiantou em tratá-lo mal, que respondeu também com agressividade. “Ele disse que não cobrou 5 reais como saiu em vários jornais. Ele disse que a zona azul era 2 reais e se o cara não quisesse por 2 reais fosse em qualquer outro canto. Por isso mesmo, eu achei que ele foi um pouco agressivo”.

Manuela César da Silva, cozinheira de um bar na rua da Moeda, presenciou a cena e também confirma que Fabrício teria cobrado 2 reais e não 5 como os jornais divulgaram. Este seria o valor recorrente cobrado entre os flanelinhas na Zona Azul. Além disso, ela afirma também que o cliente teria insultado Fabrício de “macaco”, que se prontificou a ir para a delegacia atrás de defesa contra as acusações preconceituosas. Outra flanelinha, Tereza Cristina, diz ter visto o cliente ter dado tapas no peito do rapaz.

       “Fabrício cobrou 2 reais”, disse Manuela

Foto: Danilo Aguiar                                                       

Fabrício permaneceu preso por dois dias no Cotel, não voltou a trabalhar na mesma região e não é mais visto por lá. Os flanelinhas da região ficaram taxados pela forma como a imprensa divulgou o acontecido, a “Máfia dos flanelinhas”, criminalizando todos. O flanelinha Jeová Bezerra, 42 anos, trabalha na Rua do Paço Alfândega e discorda da forma como foi relatado os fatos. “Porque a imprensa só ouve o lado do proprietário do carro, a imprensa nunca chega aqui pra perguntar como é o dia-a-dia da gente, como é o tratamento. É que nós somos sempre discriminados e é com tudo! Mesmo se você tiver certo, a imprensa não escuta o lado dos flanelinhas!”

Veja aqui o vídeo com os depoimentos

Eles sofrem constantemente discriminações, vistos como trombadinhas ou donos da rua. Jeová conta casos, por exemplo, de clientes que perguntam a funcionários do Paço Alfândega, localizado na rua em que ele trabalha, se ele é de confiança. A partir disso, hoje ele trabalha com a flanela na mão para ser reconhecido como flanelinha e não como ladrão de carros. A flanelinha na mão é o único meio deles se identificarem, já que eles não possuem mais o crachá do último cadastramento.  Essa discriminação parte também segundo o consentimento das mídias: “eu vi como Geraldo Freire e Graça Araújo falam: ‘esses marginais que se dizem flanelinha, que querem mandar na rua’”. Assim observa Jeová, que também se defende: “a gente não manda na rua, quem manda na rua é o povo! Agora, a gente precisa viver, é questão de bom senso!”

Tereza Cristina da Silva, 74 anos, trabalha na Rua Madre de Deus, no Recife Antigo, há 25 anos. Chamada de “vovó flanelinha”, ela é um exemplo de que o trabalho dos flanelinhas pode ser honesto e não criminoso. Evidencia a existência de uma maioria de flanelinhas que são taxados por uma minoria que praticam extorsão, ameaças e desrespeito ao cidadão. Há até clientes que deixam a chave do carro e pertences de valor com flanelinhas porque confiam em sua honestidade. Muitos realmente cuidam dos carros, evitam uma batida, que alguém os arranhe ou roube peças.

Tereza Cristina, 74 anos, flanelinha.

Foto: Danilo Aguiar

Veja aqui como agem os flanelinhas em Recife

O cliente Marcos Lopes, perguntado sobre o que acha do trabalho dos flanelinhas, diz:  “é totalmente irregular e eles são chatos, eles falam como se fossem os donos da rua: ‘ estaciona assim, bota assim, que aqui cabe mais carro’. Eu acho muito chato isso, ter que pagar a uma pessoa que não tem nada a ver com a rua. Se ainda fosse o dono da casa  poderia cobrar estacionamento, mas não uma pessoa que vem lá num sei de onde e diz ‘essa rua é minha’ e cobra 5 reais de cada.” Ele conta, ainda,  que evita ir para o Recife de carro  por causa disso e que já chegou a pagar 15 reais para um flanelinha que cobrou esse preço. “Eu acho isso um abuso!”. Ainda assim, ele admite a importância dos flanelinhas caso se satisfaça a necessidade de que os órgãos públicos regulamentem e organizem a profissão.

Não há nenhuma associação que defenda e/ou organize os interesses dos flanelinhas. A única que já houve não foi conduzida com a devida eficiência e, por conseguinte, acabou. Assim, não há uma organização entre eles que consiga levar à sociedade esclarecimento sobre medidas que podem melhorar a insegurança social contra os flanelinhas, como um novo cadastramento.

A maioria dos flanelinhas confirmaram que em dia de eventos acontece extorsão. Mas os que fazem isso seriam vindos de fora, que vivem de aproveitar os eventos em várias regiões do Recife, cobrando 5, 10 e até 15 reais por uma vaga, segundo os entrevistados. Os flanelinhas locais, sem aparato de qualquer autoridade para defender seu território, não podem evitar essa prática de extorsão por parte dos flanelinhas oportunistas e desconhecidos.  Eles defendem a necessidade de um regulamento ou novo cadastramento que garanta o pagamento apenas aos que são do território, estes seriam responsabilizados por tudo que acontecesse na região no que se refere aos carros, podendo ser identificados e localizados através do cadastro e do crachá. Esta medida só funcionaria junto com o apoio da PM em afastar os flanelinhas oportunistas e garantir segurança para os flanelinhas locais. Além disso, as constantes brigas entre flanelinhas pelo território causa insegurança também aos habitantes e funcionários de estabelecimentos próximos. Alexandre Augusto, garçom de um bar na Rua da Moeda, é testemunha dessas questões e defende também a necessidade de uma organização do trabalho deles, “tinha que ter uma fiscalização para organizar o ponto de cada um, para eles se organizarem e viverem tranqüilos.”

(https://moedaoutrolado.wordpress.com/2011/11/17/o-ultimo-cadastramento-de-flanelinhas/)

QUANDO E COMO FOI O ÚLTIMO CADASTRAMENTO?

O último cadastramento aconteceu no Tavares Buril, os flanelinhas receberam crachás e eram responsabilizados pela área demarcada que tomariam conta. Quaisquer incidentes como uma cobrança exorbitante, flanelinhas que fogem com o troco do dinheiro, ameaças ou problemas com o carro; eles poderiam ser denunciados segundo a área do incidente ou da identificação do crachá que carregavam. No entanto, o cadastramento não foi levado adiante em todas as regiões necessárias, nem abrangendo novos flanelinhas e, sobretudo, não veio acompanhado de medidas que garantissem a autoridade desses flanelinhas na região. Sendo assim, não foi eficaz por não impedir a atuação de outros flanelinhas e por não conseguir legitimidade.

Os flanelinhas reclamam que o policiamento que existe não se estende a uma ajuda ao trabalho deles na região. Com a ajuda da PM poderia ser impedido que outros flanelinhas se instalem e realizem práticas como extorsão.  “Policiamento existe, mas o policiamento não fiscaliza e poderia haver uma fiscalização assim, eu acho, junto com a ajuda da polícia”. Comenta Jeová, que lembra que se regulamentasse o responsável da área, a polícia deveria atuar afastando os intransigentes. “É para a polícia vim tirar o cara, num é a gente pagar para o cara sair ou obrigar o cara. Uma vez teve uma briga, discussão aqui com dois flanelinhas, sabe que o policiamento fez? ‘Se brigar vou levar os dois!’.”

Veja a entrevista na íntegra com o flanelinha Jeová: (https://moedaoutrolado.wordpress.com/2011/11/15/entrevista-com-o-flanelinha-jeova-bezerra-da-silva/)

Os guardas da CTTU, por sua vez, também não se envolvem com essa questão, apenas fiscalizam os carros, aplicando multas segundo irregularidades. De noite, não há guardas e a organização das vagas fica a cargo dos flanelinhas. Procurados para uma entrevista, assim declarou a assessoria da CTTU: ”a CCTU não se pronuncia em relação aos flanelinhas. Os flanelinhas são caso de defesa pública e os responsáveis por eles seriam a PM. A CTTU só fiscaliza os carros, nada tem a ver com essas pessoas que trabalham na rua.”

No final das contas, ninguém se responsabiliza pelas arbitrariedades de alguns flanelinhas e não se promove medidas para melhorar o problema, mesmo existindo possibilidades. Apenas se restringem a queixas e prisões. Um novo cadastramento poderia servir como meio da sociedade fiscalizar o serviço dos flanelinhas e assim, melhorar a relação entre eles. Há um projeto na Câmara de Vereadores do Recife que está sendo analisado pela comissão de segurança pública com o objetivo justamente de um novo cadastramento. Mas não se sabe se será aprovado e posto em prática.

23
nov
11

O caso Fabrício nos jornais de Recife

AS FORMAS COMO A PRISÃO DE FABRÍCIO FOI NOTICIADA POR ALGUNS JORNAIS

Veja as várias versões sobre a prisão de Fabrício, apoiada em diferentes fontes e divergentes quanto ao preço cobrado pelo flanelinha, o motivo de sua prisão.

JORNAL DO COMMERCIO

FLANELINHA É PRESO NO RECIFE ANTIGO

Ele é acusado de extorsão e ameaça a pessoas que estacionavam carro no local

Publicado em 23/08/2011, às 17h04

Fábio Jardelino

Um flanelinha foi preso no início da tarde desta terça-feira (23) por extorquir motoristas que tentavam estacionar o carro na Rua da Moeda, Bairro do Recife, Área Central. Fabrício Barros de Souza, de 21 anos, foi encaminhado à delegacia, também no Recife antigo, onde será autuado por extorsão.
De acordo com a polícia, o flanelinha estava ameaçando pessoas e cobrando até R$ 5 pelo “direito de estacionar”. Ele dizia aos motoristas que a área era dele e por isso podia cobrar o valor, mesmo se o motorista tivesse o carnê Zona Azul, que custa R$ 1 e é necessário para quem quer estacionar em áreas no Centro da Cidade.
Fabrício foi preso por um policial civil que estava de folga e passava pelo local quando presenciou o abuso e deu voz de prisão ao acusado. Ele será encaminhado ainda nesta terça (23) ao Centro de Triagem (Cotel), em Abreu e Lima, onde ficará à disposição da Justiça. Extorsão é um crime inafiançável.
A polícia agora espera que outras pessoas que foram ameaçadas por ele, compareçam à delegacia para prestar depoimento.

Disponível em: http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/cidades/policia/noticia/2011/08/23/flanelinha-e-preso-no-recife-antigo-13802.php

DIARIO DE PERNAMBUCO

FLANELINHA PRESO POR EXTORSÃO
Recife, quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Fabrício Souza, 21, cobrou R$ 2 pela folha da Zona Azul ontem à tarde. Motorista fez denúncia na delegacia

Estacionar nas ruas do Recife é uma tarefa difícil a qualquer hora do dia. E pode se tornar caso de polícia quando o motorista sente-se intimidado ou ameaçado pelos flanelinhas que loteiam entre si lugares públicos e até mesmo pontos da Zona Azul. Nesse locais, inclusive, negociam a folha do talão com 100% de aumento do valor oficial. Ontem, na Rua da Moeda, essa situação corriqueira levou a um desfecho surpreendente: o flanelinha Fabrício Barros de Souza, 21, acabou preso. Ele foi detido em flagrante por ameaçar o policial civil Marcelo Eurico da Rocha, 55, que se recusou a pagar R$ 2 pela folha de Zona Azul.

O delito foi caracterizado como uma extorsão, crime inafiançável. Fabrício foi conduzido ao Cotel, à noite.  A prisão só ocorreu por causa da denúncia, que raramente é feita pelos motoristas, mas que a polícia considera fundamental para coibir essa prática.
O caso aconteceu por volta das 13h. Segundo a delegada Silvana Lellys, Fabrício seguiu uma prática comum no Bairro do Recife e cobrou o valor de R$ 2 por um cartão. “A vítima se recusou a pagar e o flanelinha mandou ele retirar o carro, afirmando que a área tinha dono e fazendo ameaças contra o motorista e o carro”, contou. Sentindo-se intimidado, Marcelo Eurico chamou a polícia. “Ele estava amedrontado e com medo de um possível prejuízo. O flanelinha não só o constrangeu, como ameaçou para obter vantagem em uma atividade ilícita, o que caracterizou a extorsão”, afirmou a delegada.
O flanelinha contou outra versão na delegacia. De acordo com ele, um outro flanelinha estava dirigindo o carro de Marcelo e tentou estacionar em “sua área”, dando início a uma confusão. “Ele estava colocando o carro em local proibido e eu fui conversar com ele. Foi quando o policial apareceu e começou a me insultar”, afirmou. Comerciantes dos bares próximos afirmaram que houve um bate-boca e o policial tentou levar o flanelinha para a delegacia. “Em momento algum ele chegou a cobrar. O rapaz já desceu do carro gritando”, contou um vendedor.
Na delegacia, entretanto, o suspeito não negou que cobra 100% sobre o valor do estacionamento. “Eles estabelecem valores pelas ruas, como se elas fossem lotes, chegando a registrar em cartório um acordo e pagando R$ 2 mil pela administração do ponto de estacionamento. Para os motoristas, dependendo do carro, o valor pode chegar a 1.000% da taxa inicial”, contou Silvana Lellys.

A delegada disse que esse foi o segundo flanelinha preso em menos de quatro meses por tentativa de extorsão. “As reclamações são muitas, de 10 a 20 por semana, mas os motoristas têm medo de fazer uma queixa formal”, contou. Em junho, em uma reunião com a prefeitura, ela e o delegado da Boa Vista propuseram a criação de um cadastro para flanelinhas e uma taxa de R$ 0,30 por folha.
Em nota à imprensa, a Companhia de Trânsito e Transporte Urbano do Recife disse não caber à empresa reprimir a ação dos flanelinhas. “Essa é uma questão de segurança pública e os motoristas que se sentirem extorquidos ou ameaçados pela abordagem dessas pessoas devem denunciar a situação às autoridades policiais competentes”. Segundo o diretor geral de Operações da Polícia Civil, Osvaldo Morais, as vítimas desse tipo de crime podem prestar queixas em qualquer delegacia. “Basta que sejam constrangidos ou extorquidos pelos flanelinhas”.

Disponível em: http://www.diariodepernambuco.com.br/2011/08/24/vidaurbana1_0.asp

PORTAL PE360GRAUS DO G1

FLANELINHA ACUSADO DE EXTORQUIR MOTORISTAS É PRESO NO BAIRRO DO RECIFE ANTIGO

Segundo a polícia, o suspeito cobrava até R$ 10 pelo bilhete da Zona Azul, enquanto o tíquete é comercializado ao preço tabelado de R$ 1 pela Prefeitura do Recife

Da Redação do pe360graus.com

Um flanelinha acusado de praticar o crime de extorsão foi preso em flagrante no Bairro do Recife, no início da tarde desta terça-feira (23). Segundo a polícia, o suspeito Fabrício Barros de Souza, de 21 anos, foi flagrado ameaçando e exigindo uma taxa em dinheiro a um motorista para estacionar na rua da Moeda.
Um policial civil que estava de folga deu voz de prisão ao acusado e o levou à Delegacia de Polícia Civil situada na avenida Rio Branco. Segundo informações da polícia, Fabrício Barros de Souza estava ameaçando as pessoas que estacionavam no local e não davam dinheiro ou aquelas que não compravam o tíquete da Zona Azul a ele. Enquanto o bilhete é comercializado ao preço tabelado de R$ 1 pela Prefeitura do Recife, o suspeito cobrava de R$ 5 a R$ 10 pelo tíquete, conforme informou a polícia.
Em depoimento, o suspeito negou as acusações, apesar de algumas pessoas terem procurado à delegacia para contar da prática. A expectativa da delegada Silvana Lellys, responsável pelo flagrante, é que, com a divulgação da prisão do acusado, outras vítimas apareçam para reconhecer o suspeito e prestar testemunho dos fatos.
Fabrício Barros de Souza foi autuado em flagrante pelo crime de extorsão e será conduzido ao Centro de Triagem (Cotel), em Abreu e Lima, na Região Metropolitana do Recife.

Disponível em: http://pe360graus.globo.com/noticias/policia/prisao/2011/08/23/NWS,537856,8,233,NOTICIAS,766-FLANELINHA-ACUSADO-EXTORQUIR-MOTORISTAS-PRESO-BAIRRO-RECIFE.aspx



22
nov
11

O sistema dos flanelinhas no Recife

Juliette Vanessa

“Não é que a gente seja dono de rua, mas a gente respeita de uma senhoria para o outro”. É  com essa frase que o flanelinha Jeová nos lembra que entre eles se formou uma espécie de sistema, onde cada um tem sua área e briga por ela como se de fato tivesse direito a mesma indiscutivelmente. Isto se deve porque  eles lotearam cada espaço das ruas do Recife, a fim de se organizar ou estabelecer autoridades.

A relação entre os flanelinhas é de respeito à região de cada um. Funciona um sistema de cada um em sua parte ou território, aqueles que chegaram primeiro são respeitados pelos que chegaram depois. A passagem de um território a outro flanelinha é por escolha do mais antigo que elege o seu “auxiliar”. Eles também comumente trabalham em acordo com os donos dos estabelecimentos próximos, que concedem proteção ao seu trabalho em busca de fiscalização e segurança. Os flanelinhas da Rua do Paço Alfândega, assim, recebem cobranças também dos funcionários do shopping pela segurança dos carros estacionados ali na frente.

Com os flanelinhas do Recife Antigo, apesar da Zona Azul ser 1 real, eles cobram 2 reais, porque o extra é pelo serviço de terem tomado conta do carro. Dois reais é o preço mais freqüente entre os flanelinhas, exceto durante a noite e dia de eventos que acontece o que os jornais chamaram de extorsão. Isto é, uma cobrança exorbitante por parte de alguns flanelinhas que se aproveitam dessa oportunidade. Por outro lado, segundo os funcionários dos bares próximos, entre os flanelinhas mais antigos, os ditos locais, nunca foi presenciado agressão aos carros ou ameaças com os clientes. Eles têm o direito de pagar o valor que quiser ou mesmo não pagam, exceto quando é Zona Azul que tem de pagar pelo menos o valor de 1 real referente à taxa.

Segundo os flanelinhas, a importância de seu trabalho está em organizar o espaço das vagas, já que há clientes que por chegarem primeiro se acham no direito de estacionar de forma a ocupar mais de uma. Como também de garantir segurança e cuidado em como o carro é deixado.  Mesmo assim, admitem que muitos vê o seu trabalho como um absurdo. “ Eu acho que se não tivesse flanelinha teria menos vaga. (…), a outra importância é dar segurança ao cliente. É essa que eu acho a importância do flanelinha! Há muitos que acham que não, mas cada um é cada um. É uma questão de ponto de vista.“, diz Jeová.

17
nov
11

O último cadastramento de flanelinhas

No dia 29 de agosto, depois do incidente com Fabrício Barros de Souza, a delegada que o prendeu, Silvana Léllys, tomou a iniciativa de começar um cadastro dos flanelinhas do Recife Antigo.

Juliette Vanessa e Ivanilson Martins

A equipe da Delegacia do Rio Branco, por conta própria, começou a percorrer as dez vias do Recife Antigo e a Rua do Imperador (no bairro de Santo Antônio), atrás dos cerca de 500 flanelinhas que atuam na região para criar o arquivo com seus dados e fotos. “Isso vai facilitar muito na hora em que uma pessoa queira fazer uma denúncia. Ficam protegidos o motorista e o próprio flanelinha”, defendeu a delegada Silvana Léllys. Ela também acredita que se a folha da Zona Azul fosse repassada aos flanelinhas por 0,30 R$ não haveria uma cobrança exorbitante.

Antes disso, houve a chamada Operação Flanelinha, que foi a única tentativa de regularizar o trabalho dos flanelinhas, através do cadastramento. Este aconteceu em 2005, por iniciativa do então Secretário Estadual de Defesa Social, João Braga. Os flanelinhas foram inscritos pela Polícia Militar e cadastrados no Instituto Tavares Buril (ITB).

Nessa ocasião, boa parte dos guardadores de carros do Recife foram cadastrados. O objetivo não era lhes atribuir domínio às ruas, mas obrigar eles a usar crachás, facilitando a fiscalização da sociedade com o seu serviço. Os flanelinhas, por sua vez, teriam oficializada a sua região, organizando suas relações e atuações.

Os motoristas, ao entrar em contato com os flanelinhas, poderiam saber quem ele é e a quem atribuir responsabilidade caso acontecesse algo com o veículo ou qualquer espécie de extorsão e ameaça. Suas identidades e endereços estariam disponíveis no cadastro, do qual a PM teria acesso. Os flanelinhas seriam obrigados a andar com os crachás, sob pena de pegar de seis a dez meses de prisão, após uma averiguação por policiais militares.

Desde então, o cadastramento não teve continuidade, nem esclarecimento frente à população, não conseguindo legitimidade. A prefeitura do Recife, por sua vez, nega que esse cadastramento tivesse legitimidade jurídica (por ser de gestão anterior) e apenas agora há uma comissão recentemente formada pelas Secretarias de Serviços Públicos, assuntos jurídicos, planejamento, CTTU, DIRCON e outros órgãos do Governo do Estado que está elaborando um plano para regularizar a situação dos flanelinhas.

Atualmente, há um projeto na Câmara de Vereadores do Recife para cadastramento dos flanelinhas. O projeto está para ser aprovado, desde julho, na comissão de Segurança pública do Estado.

15
nov
11

Entrevista com o flanelinha Jeová Bezerra da Silva

Três semanas após a prisão de Fabrício, às 17 horas do dia 15 de setembro, fomos ao Bairro do Recife Antigo, entre o Shopping Paço Alfândega e a Livraria Cultura, conversar com o flanelinha Jeová Bezerra da Silva, de 42 anos, que trabalha há 18 na área e é colega de profissão de Fabrício.

“Seu” Jeová é cadastrado na Zona Azul, um estacionamento rotativo criado pela Prefeitura do Recife,e coordenado pela Companhia de Trânsito e Transporte Urbano (CTTU), que busca promover a democratização do espaço público nas movimentadas vias do Centro. No depoimento, ele fala como a atividade dos flanelinhas divide opiniões e revela a existência de possíveis esquemas de extorsão.

 

“Ele foi um pouco agressivo… disse que não cobrou 5 reais como saiu em vários jornais, que a zona azul era 2 reais e se o cara não quisesse por 2 reais fosse em qualquer outro canto”

1.  Repórter: Seu Jeová, o senhor trabalha com Fabrício, o flanelinha que foi preso e acusado de extorsão?

 Jeová Bezerra da Silva: Não, eu trabalho aqui e ele trabalha na outra rua. Agora toda vez ele passa aqui pra ir trabalhar, porque      é caminho dele.

“Às vezes o cliente pergunta assim: ‘Quanto é a Zona Azul?’. ‘Dois reais’. ‘Não vende por 1 real, não?’. ‘Não, eu vendo a Zona Azul por 1 real, mas cobro mais 1 por tomar conta do carro’

2.      R: Como aconteceu o caso de extorsão na Rua da Moeda?

 JBS: Ele(Fabrício) falou pra mim que quando chegou perto do carro o cliente já foi tratando ele mal. “o que é que você quer?…”, destratando ele pela cor e etc. Aí ele disse: ”Então bota o seu carro em outro canto”(ele levanta a voz reproduzindo a fala de Fabrício). Ele foi um pouco agressivo… disse que não cobrou 5 reais como saiu em vários jornais, que a zona azul era 2 reais e se o cara não quisesse por 2 reais fosse em qualquer outro canto. Às vezes o cliente pergunta assim: “Quanto é a Zona Azul?”. “Dois reais”. “Não vende por 1 real, não?”. “Não, eu vendo a Zona Azul por 1 real, mas cobro mais 1 por tomar conta do carro”.

3.    R: Quer dizer então que a culpa não foi só de Fabrício como falaram os jornais?

JBS: Tem os dois lados. Eu ouvi o lado do flanelinha, eu não ouvi o do cliente, que eu não conheço ele. Não sei quem tem razão, não posso opinar numa coisa que eu não tenho ouvido os dois lados. Eu mesmo assim to achando que ele foi agressivo, porque você tem que ter jogo de cintura pra trabalhar nisso. Porque o cara vem: “Mas, rapaz, num é 1 real?”. “É, mas me dê R$1,50 pra eu ganhar alguma coisa, eu num posso ficar aqui o dia todo, a gente paga passagem, paga almoço… Se não a gente ficaria em casa e a gente fica aqui, evitando que um maloqueiro arranhe seu carro, leve uma peça, leve uma antena ou um carro bata”.  Como aconteceu no outro dia, que uma mulher passou mal e bateu nos três carros da frente e eu fui chamar os donos dos carros. Outra vez, uma mulher deu uma ré, bateu e amassou o carro detrás. “Olha, a senhora amassou o carro aí”. Nem era eu que tava tomando conta do carro, mesmo assim eu fui lá e chamei o cara, tudinho, acertou e a mulher pagou. Entendeu?

“A imprensa só ouve o lado do proprietário do carro,(…) nunca chega aqui pra perguntar como é o dia-a-dia da gente. Agora em todo canto tem o lado bom e o lado ruim. Isso é na política, é em todo lado e o lado dos flanelinhas não seria pior. Nós somos sempre discriminados…e é com tudo!”

4.   R: Entendi. O senhor concorda, como os jornais falaram, que era uma máfia dos flanelinhas?

 JBS: Não, discordo. Porque a imprensa só ouve o lado do proprietário do carro, a imprensa nunca chega aqui pra perguntar como é o dia-a-dia da gente. Agora em todo canto tem o lado bom e o lado ruim. Isso é na política, é em todo lado e o lado dos flanelinhas não seria pior. Nós somos sempre discriminados…e é com tudo! Essa semana mesmo a mulher botou o carro aqui. Aí eu fui lá atender, ela ficou mais de 20 minutos dentro do carro! Quando eu fui atender outro carro,  ela desceu e entrou no shopping. Perguntou ao moço do shopping se eu era daqui, quem eu era…essa discriminação. O menino lá me chamou: “Que que houve, que a mulher veio perguntar se você era daqui? Eu disse que você era de confiança e que estava aqui desde o início do shopping, que todo mundo te conhecia, que é gente boa e o pessoal deixava as chaves com você”.  Ela disse: ‘É que a gente não conhece ’. Então porque ela não coloca na garagem?  Aí ela me chamou e me deu 2 reais, “tome pra ajudar”. Aí agora eu tô trabalhando com a flanela na mão, porque é como se identifica né, a gente não tem mais o crachá…

 

“Eu vi mesmo como Geraldo Freire e Graça Araújo falam: ‘Esses marginais que se diz flanelinha, que quer mandar na rua’. A gente não manda na rua, quem manda na rua é o povo! Agora, a gente precisa viver, é questão de bom senso!

5.      R: Então o Sr. acredita que a imprensa não se interessa pelo lado de vocês no fato?

 JBS: A imprensa só dá valor ao lado do proprietário do veículo… Mesmo se você tiver certo, a imprensa não escuta o lado dos flanelinhas! Eu vi mesmo como Geraldo Freire e Graça Araújo falam: “Esses marginais que se diz flanelinha, que quer mandar na rua”. A gente não manda na rua, quem manda na rua é o povo! Agora, a gente precisa viver, é questão de bom senso!  O cara chega aqui, já encontra a gente aqui. Outro passa o dia todinho aqui, nem obrigado dá. E a gente faz tudo. A gente é obrigado a anotar a placa do carro, porque se acontece alguma coisa a gente é chamado lá. E o cara nunca nos dá nada, passa o dia todinho sem gastar um centavo. Aquele carro branco ali chegou às 8 horas da manhã ontem, saiu de 9 da noite, nem obrigado dá. Agora se o cara passar trincado, aí a gente tem que responder… A gente é chamado…A gente é alguma coisa… Tudo é culpa do flanelinha! Se vier um carro e bater, é culpa do flanelinha!

6.      R: Eu estava conversando com os outros flanelinhas ali e eles me falaram que havia um sindicato dos flanelinhas, mas que não deu certo. Vocês tem algum representante hoje? Há alguém que regule o trabalho de vocês?

 JBS: Teve uma associação dos flanelinhas, mas por uma razão e por outra não funcionou, acabou o presidente entregando… Vai hoje, vai amanhã… e ficou por isso mesmo. Ninguém se interessou mais.

7.      R: Como funciona o trabalho de vocês? precisam pagar alguma taxa à CTTU por atuar na área da Zona Azul?

 JBS: Não, é autônomo mesmo. A CTTU só faz a gente fiscalizar os carros, olhar os carros que são da Zona Azul eletrônico e os da Zona Azul manual.

8.   R: Certas pessoas disseram que alguns guardas da CTTU pediam para vocês cobrarem mais caro aos clientes. Assim, vocês repassariam esse dinheiro para os guardas e eles não multariam quem passasse do horário. O Sr. sabe algo sobre isso?

JBS: Não, aí eu não sei, não vi e nunca ouvi nem falar(olha desconfiado para todos os lados).  Não posso opinar sobre algo que não tenho conhecimento. Às vezes tem um carro assim, como aquele preto… tá num lugar irregular. Aí a gente avisa, a gente pede pra ocupar outra vaga. Mas em termo de dinheiro, não! Nunca dei dinheiro a guarda! Não faço questão de dinheiro dele! Trabalho aqui sozinho o dia todinho! Nunca dei e nem vou. E nunca tive problema com guarda me multar e nem carro nenhum não… Até porque agora é pra gente fiscalizar a Zona Azul… Num tem que pagar a Azul? Eu cobro…, tenho o crachá. Vence o horário que eu boto… Às vezes o carro sai e eu boto outro no lugar.

 

“Eu não cobro por uma vaga, é o cliente que tem que pagar”

“’Você colabora com 2 reais’. Eu não cobro, você colabora! Você pode colaborar com 2 ou com menos ou com nada”

9.  R: Seu Jeová, o senhor cobra quanto por uma vaga?

 JBS: Eu não cobro por uma vaga, é o cliente que tem que pagar. O cara parou aqui. Certo, aí ele tá na Zona Azul…Eu boto na Zona Azul!…Ele chega de nove horas, sai de meio dia. Ele vai pagar 4 reais, porque são duas Zona Azul, que são duas horas. Mas acontece assim… de o cliente ficar com o carro aqui, mas vai passar mais de duas horas… Ele liga pra mim, eu tiro o carro daqui e ponho ali, onde ele passa o dia todo, entendeu? Agora, à noite como não tem Zona Azul, aí tem cliente que pergunta a mim: “Quanto é aqui?”. Eu digo: “Você colabora com 2 reais”. Eu não cobro, você colabora! Você pode colaborar com 2 ou com menos ou com nada.

“Em termos de extorsão é, tem muita gente que faz isso. É mais quando tem eventos, que vem muita gente de fora e tal, aí se diz que cobram 5 e 10 reais” 

10. R: Então é de noite que acontece o que os jornais chamaram de extorsão?

 JBS: Em termos de extorsão é, tem muita gente que faz isso. É mais quando tem eventos, que vem muita gente de fora e tal, aí se diz que cobram 5 e 10 reais. Eu não sei, porque eu não trabalho de noite.  Aqui eu trabalho de segunda a sexta, eu chego aqui de 7 horas e vou até 6 da noite. Segunda, terça e quarta que eu estico um pouquinho, quando tem umas coisas aí na livraria. Sabe, é o extra que eu não ganho de dia. De dia, eu passo o dia todinho aqui e ganho 20 reais. Agora, eu gasto 10 de passagem, de almoço, lanche… O que foi que eu fiz? E quando eu chego em casa, sem dinheiro, a mulher ainda quer dar em mim! Porque vocês mulheres tão muito bravas!

11.  R: Então, existe extorsão?

 JBS: É, existe, porque a gente já vê. Mas geralmente só acontece quando tem eventos, como casamento..Certo?.. Porque o pessoal vem de fora pra cobrar e cobra 10 reais e tal. Porque isso era pra ter uma situação assim: era pra pagar só a quem é da área! Você, toma conta de uma área! Esse menino que trabalha comigo aí, ele é meu auxiliar.

 

“Não é que a gente seja dono de rua, mas a gente respeita uma senhoria para o outro…(…) eu cheguei aqui primeiro, você tem que me respeitar”

 

12. R: Quer dizer que cada um é responsável por uma parte da rua para trabalhar?

JBS: Não é que a gente seja dono de rua, mas a gente respeita uma senhoria para o outro… Quer dizer, vai inaugurar aqui o shopping. Aí eu cheguei aqui primeiro, você tem que me respeitar. Porque eu fiz a área primeiro!… Então você tem que analisar o auxiliar… Exemplo: ele é meu auxiliar, eu vou embora e ele fica aqui, porque eu confio nele. Porque eu ficava aqui antes desse shopping aparecer. Esse shopping quando começou ia de desde 2 da manha às 11 da noite. E às vezes ficava gente aqui até meia noite, num restaurante que tinha som.“Ó vou jantar ali, volto lá pras 11h”. Aí o cliente perguntava: “Quanto é?”. “O senhor ajeita aí”. E o cliente mesmo dava 5 reais… 5, 10.. Teve uma cara que: “Tome aí pra ajudar”, deu 20 reais. Como tem pessoas também que: “Tenho trocado não”. É uma faca de dois gumes, certo.

13.  R: Os flanelinhas cadastrados são responsabilizados cada um por sua área? O senhor é cadastrado?

 JBS: São… Eu sou cadastrado e sempre foram responsáveis. Desde a reunião lá, do primeiro cadastramento que foi lá no Tavares Buril. Era assim: se acontecesse qualquer problema na área, como acontece por aí de muita gente reclamar de extorsão, ou de você querer dar pro cara 10 reais aí você dá 50 pra ele dar o trocado, mas ele vai embora com o dinheiro. Acontece muito isso aí e já tem várias queixas sobre isso. E à noite é complicado.

 

“Eu já peguei briga, já cheguei a dar dinheiro a cara pra ele não querer ficar aqui na área”

14.  R: Então, se houvesse um novo cadastramento melhoraria? Por que?

 JBS: Melhoraria. Porque, primeiro, não vinha gente de fora e, segundo, que o pessoal que vem de fora não ia poder trabalhar. Você sabe da situação… Porque seria:” Tá fazendo o que aí?”. “Eu trabalho aqui”.”Cadê seu crachá?”. Aí então você saberia de quem cobrar. Você olha o crachá: Jeová. Qualquer problema com seu carro: “Foi com Jeová”. Como acontece quando tem evento…Eu já peguei briga, já cheguei a dar dinheiro a cara pra ele não querer ficar aqui na área.

15. R: Como é a relação com o comércio da área?

JBS: A gente, além da cobrança da prefeitura e do calendário,  tem a cobrança do pessoal do shopping! Que quando começou abrir o shopping aqui, era proibido os dois lados. Eu que falei com o mandatário daí. Pedi a ele, expliquei. Ele: “Mas não interessa para a gente não, porque vai ter garagem”. ”Sim, doutor, mas muita gente não gosta de chegar e colocar em garagem, porque tem aquela taxa, tem justificativa”. Aí, “Vamo ver”. Ficou resolvido. Quando inaugurou o shooping… Foi em duas semanas, eu tava aqui, tava cheio e tinha placa de proibido pra carro no outro lado ali. Aí eu chamei: “Moço, o pessoal tá multando os carros  de frente e o pessoal daqui do shopping quer comprar, tomar café… às vezes tá no trampo e não quer parar no estacionamento, só quer tomar café lá dentro. “E Como é que funciona isso?”. Aí eu expliquei pra ele como funciona a Zona Azul. Aí foi que ele solicitou pra CTTU e botou a Zona Azul pro lado de lá.

“Policiamento existe, mas o policiamento não fiscaliza, principalmente diretamente. E poderia haver uma fiscalização assim, eu acho, junto com a ajuda da polícia”

16.  R: Mas existe policiamento aqui nessa região? Eles também fiscalizam os flanelinhas?

 JBS: Policiamento existe, mas o policiamento não fiscaliza, principalmente diretamente. E poderia haver uma fiscalização assim, eu acho, junto com a ajuda da polícia. “Você é daqui, você é responsável por essa área aqui né!” Aí o cara ali é o responsável. Aí chega um cara de fora, aí eu vou dizer: “O cara tá aqui perturbando”… É pra polícia vim tirar o cara, num é a gente pagar pro cara sair ou obrigar o cara…! Uma vez teve uma briga, discussão aqui com dois flanelinhas… Sabe que o policiamento fez? “Se brigar vou levar os dois!”. Aí eu sou responsável por essa área, mas o cara vem e cobra um carro aqui de 10 a 5 reais e leva o dinheiro do cara! Isso prejudica a gente, que não sabe se o flanelinha é confiável.Principalmente quando é evento grande, carnaval e no marco zero. Quando tem evento assim na livraria, a gente tem como medir. Até o pessoal do shopping fala assim “Não brigue não”.

17.  R: O senhor trabalha aqui durante à noite também?

 JBS: Trabalho. Aqui, só trabalho aqui. Eu sou o principal da área e no cadastramento ficou assim: o responsável da área não é o dono da rua, como o dono do carro bota! Tem um responsável também, porque em todo lugar você tem que ter um responsável! Então, eu sou tratado como dono de rua… A gente não é dono de rua, a gente é responsável pela área…Se o carro aparecer arrombado, aí quem é que vai…”Qual foi a rua que o senhor colocou seu carro?”. “Rua tal!” “Quem que tava lá?”. ”Jeová!” Aí pronto! (Nesse momento, aos 12 minutos da entrevista, um cliente pede a chave ao flanelinha, vai até o carro, abre a porta, pega um objeto. Ao retornar, entrega a chave ao flanelinha num gesto de confiança, que a coloca novamente no bolso sem deixar de falar um minuto conosco).

 

18.  R: Há casos em que vocês são tratados com discriminação? Chamam vocês de que?

JBS: Muitos, muitos. Ah, diz que a gente quer mandar na rua, que a gente não pode cobrar, que isso, que aquilo… Essas coisas, entende?

19.  R: E qual a importância do trabalho de vocês?

 JBS: Olha, é duas razões que eu acho. Se não tivesse flanelinha teria menos vaga. Porque tem gente que chega e, por exemplo, é só uma faixa assim, mas se a gente não arrumar, tem gente que chega e ocupa dois lugares. Tem gente que, mesmo que a gente vá arrumar o carro, diz: “Não, deixa assim mesmo, quem chega primeiro é quem manda!”… Tem outro que diz: “Eu pago imposto”. Eu respondo: “Mas o cara que vai chegar num paga imposto também ?” Eu acho que a outra importância é dar segurança ao cliente. Tem cliente que pára o carro ali atrás, aí sai de 9 da noite, é cheio de “cheira-cola” por aqui essa hora…Aí um deles me chamou: “Leva ali meu carro”. Isso evita de um maloqueiro que passar aqui, apesar de ter câmera na rua, eles não ligam não..Deixar a luz do carro acesa, a gente vai lá chamar.. É essa que eu acho a importância do flanelinha! Há muitos que acham que não… Mas.. cada um é cada um… É uma questão de ponto de vista.