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Entrevista com o flanelinha Jeová Bezerra da Silva

Três semanas após a prisão de Fabrício, às 17 horas do dia 15 de setembro, fomos ao Bairro do Recife Antigo, entre o Shopping Paço Alfândega e a Livraria Cultura, conversar com o flanelinha Jeová Bezerra da Silva, de 42 anos, que trabalha há 18 na área e é colega de profissão de Fabrício.

“Seu” Jeová é cadastrado na Zona Azul, um estacionamento rotativo criado pela Prefeitura do Recife,e coordenado pela Companhia de Trânsito e Transporte Urbano (CTTU), que busca promover a democratização do espaço público nas movimentadas vias do Centro. No depoimento, ele fala como a atividade dos flanelinhas divide opiniões e revela a existência de possíveis esquemas de extorsão.

 

“Ele foi um pouco agressivo… disse que não cobrou 5 reais como saiu em vários jornais, que a zona azul era 2 reais e se o cara não quisesse por 2 reais fosse em qualquer outro canto”

1.  Repórter: Seu Jeová, o senhor trabalha com Fabrício, o flanelinha que foi preso e acusado de extorsão?

 Jeová Bezerra da Silva: Não, eu trabalho aqui e ele trabalha na outra rua. Agora toda vez ele passa aqui pra ir trabalhar, porque      é caminho dele.

“Às vezes o cliente pergunta assim: ‘Quanto é a Zona Azul?’. ‘Dois reais’. ‘Não vende por 1 real, não?’. ‘Não, eu vendo a Zona Azul por 1 real, mas cobro mais 1 por tomar conta do carro’

2.      R: Como aconteceu o caso de extorsão na Rua da Moeda?

 JBS: Ele(Fabrício) falou pra mim que quando chegou perto do carro o cliente já foi tratando ele mal. “o que é que você quer?…”, destratando ele pela cor e etc. Aí ele disse: ”Então bota o seu carro em outro canto”(ele levanta a voz reproduzindo a fala de Fabrício). Ele foi um pouco agressivo… disse que não cobrou 5 reais como saiu em vários jornais, que a zona azul era 2 reais e se o cara não quisesse por 2 reais fosse em qualquer outro canto. Às vezes o cliente pergunta assim: “Quanto é a Zona Azul?”. “Dois reais”. “Não vende por 1 real, não?”. “Não, eu vendo a Zona Azul por 1 real, mas cobro mais 1 por tomar conta do carro”.

3.    R: Quer dizer então que a culpa não foi só de Fabrício como falaram os jornais?

JBS: Tem os dois lados. Eu ouvi o lado do flanelinha, eu não ouvi o do cliente, que eu não conheço ele. Não sei quem tem razão, não posso opinar numa coisa que eu não tenho ouvido os dois lados. Eu mesmo assim to achando que ele foi agressivo, porque você tem que ter jogo de cintura pra trabalhar nisso. Porque o cara vem: “Mas, rapaz, num é 1 real?”. “É, mas me dê R$1,50 pra eu ganhar alguma coisa, eu num posso ficar aqui o dia todo, a gente paga passagem, paga almoço… Se não a gente ficaria em casa e a gente fica aqui, evitando que um maloqueiro arranhe seu carro, leve uma peça, leve uma antena ou um carro bata”.  Como aconteceu no outro dia, que uma mulher passou mal e bateu nos três carros da frente e eu fui chamar os donos dos carros. Outra vez, uma mulher deu uma ré, bateu e amassou o carro detrás. “Olha, a senhora amassou o carro aí”. Nem era eu que tava tomando conta do carro, mesmo assim eu fui lá e chamei o cara, tudinho, acertou e a mulher pagou. Entendeu?

“A imprensa só ouve o lado do proprietário do carro,(…) nunca chega aqui pra perguntar como é o dia-a-dia da gente. Agora em todo canto tem o lado bom e o lado ruim. Isso é na política, é em todo lado e o lado dos flanelinhas não seria pior. Nós somos sempre discriminados…e é com tudo!”

4.   R: Entendi. O senhor concorda, como os jornais falaram, que era uma máfia dos flanelinhas?

 JBS: Não, discordo. Porque a imprensa só ouve o lado do proprietário do carro, a imprensa nunca chega aqui pra perguntar como é o dia-a-dia da gente. Agora em todo canto tem o lado bom e o lado ruim. Isso é na política, é em todo lado e o lado dos flanelinhas não seria pior. Nós somos sempre discriminados…e é com tudo! Essa semana mesmo a mulher botou o carro aqui. Aí eu fui lá atender, ela ficou mais de 20 minutos dentro do carro! Quando eu fui atender outro carro,  ela desceu e entrou no shopping. Perguntou ao moço do shopping se eu era daqui, quem eu era…essa discriminação. O menino lá me chamou: “Que que houve, que a mulher veio perguntar se você era daqui? Eu disse que você era de confiança e que estava aqui desde o início do shopping, que todo mundo te conhecia, que é gente boa e o pessoal deixava as chaves com você”.  Ela disse: ‘É que a gente não conhece ’. Então porque ela não coloca na garagem?  Aí ela me chamou e me deu 2 reais, “tome pra ajudar”. Aí agora eu tô trabalhando com a flanela na mão, porque é como se identifica né, a gente não tem mais o crachá…

 

“Eu vi mesmo como Geraldo Freire e Graça Araújo falam: ‘Esses marginais que se diz flanelinha, que quer mandar na rua’. A gente não manda na rua, quem manda na rua é o povo! Agora, a gente precisa viver, é questão de bom senso!

5.      R: Então o Sr. acredita que a imprensa não se interessa pelo lado de vocês no fato?

 JBS: A imprensa só dá valor ao lado do proprietário do veículo… Mesmo se você tiver certo, a imprensa não escuta o lado dos flanelinhas! Eu vi mesmo como Geraldo Freire e Graça Araújo falam: “Esses marginais que se diz flanelinha, que quer mandar na rua”. A gente não manda na rua, quem manda na rua é o povo! Agora, a gente precisa viver, é questão de bom senso!  O cara chega aqui, já encontra a gente aqui. Outro passa o dia todinho aqui, nem obrigado dá. E a gente faz tudo. A gente é obrigado a anotar a placa do carro, porque se acontece alguma coisa a gente é chamado lá. E o cara nunca nos dá nada, passa o dia todinho sem gastar um centavo. Aquele carro branco ali chegou às 8 horas da manhã ontem, saiu de 9 da noite, nem obrigado dá. Agora se o cara passar trincado, aí a gente tem que responder… A gente é chamado…A gente é alguma coisa… Tudo é culpa do flanelinha! Se vier um carro e bater, é culpa do flanelinha!

6.      R: Eu estava conversando com os outros flanelinhas ali e eles me falaram que havia um sindicato dos flanelinhas, mas que não deu certo. Vocês tem algum representante hoje? Há alguém que regule o trabalho de vocês?

 JBS: Teve uma associação dos flanelinhas, mas por uma razão e por outra não funcionou, acabou o presidente entregando… Vai hoje, vai amanhã… e ficou por isso mesmo. Ninguém se interessou mais.

7.      R: Como funciona o trabalho de vocês? precisam pagar alguma taxa à CTTU por atuar na área da Zona Azul?

 JBS: Não, é autônomo mesmo. A CTTU só faz a gente fiscalizar os carros, olhar os carros que são da Zona Azul eletrônico e os da Zona Azul manual.

8.   R: Certas pessoas disseram que alguns guardas da CTTU pediam para vocês cobrarem mais caro aos clientes. Assim, vocês repassariam esse dinheiro para os guardas e eles não multariam quem passasse do horário. O Sr. sabe algo sobre isso?

JBS: Não, aí eu não sei, não vi e nunca ouvi nem falar(olha desconfiado para todos os lados).  Não posso opinar sobre algo que não tenho conhecimento. Às vezes tem um carro assim, como aquele preto… tá num lugar irregular. Aí a gente avisa, a gente pede pra ocupar outra vaga. Mas em termo de dinheiro, não! Nunca dei dinheiro a guarda! Não faço questão de dinheiro dele! Trabalho aqui sozinho o dia todinho! Nunca dei e nem vou. E nunca tive problema com guarda me multar e nem carro nenhum não… Até porque agora é pra gente fiscalizar a Zona Azul… Num tem que pagar a Azul? Eu cobro…, tenho o crachá. Vence o horário que eu boto… Às vezes o carro sai e eu boto outro no lugar.

 

“Eu não cobro por uma vaga, é o cliente que tem que pagar”

“’Você colabora com 2 reais’. Eu não cobro, você colabora! Você pode colaborar com 2 ou com menos ou com nada”

9.  R: Seu Jeová, o senhor cobra quanto por uma vaga?

 JBS: Eu não cobro por uma vaga, é o cliente que tem que pagar. O cara parou aqui. Certo, aí ele tá na Zona Azul…Eu boto na Zona Azul!…Ele chega de nove horas, sai de meio dia. Ele vai pagar 4 reais, porque são duas Zona Azul, que são duas horas. Mas acontece assim… de o cliente ficar com o carro aqui, mas vai passar mais de duas horas… Ele liga pra mim, eu tiro o carro daqui e ponho ali, onde ele passa o dia todo, entendeu? Agora, à noite como não tem Zona Azul, aí tem cliente que pergunta a mim: “Quanto é aqui?”. Eu digo: “Você colabora com 2 reais”. Eu não cobro, você colabora! Você pode colaborar com 2 ou com menos ou com nada.

“Em termos de extorsão é, tem muita gente que faz isso. É mais quando tem eventos, que vem muita gente de fora e tal, aí se diz que cobram 5 e 10 reais” 

10. R: Então é de noite que acontece o que os jornais chamaram de extorsão?

 JBS: Em termos de extorsão é, tem muita gente que faz isso. É mais quando tem eventos, que vem muita gente de fora e tal, aí se diz que cobram 5 e 10 reais. Eu não sei, porque eu não trabalho de noite.  Aqui eu trabalho de segunda a sexta, eu chego aqui de 7 horas e vou até 6 da noite. Segunda, terça e quarta que eu estico um pouquinho, quando tem umas coisas aí na livraria. Sabe, é o extra que eu não ganho de dia. De dia, eu passo o dia todinho aqui e ganho 20 reais. Agora, eu gasto 10 de passagem, de almoço, lanche… O que foi que eu fiz? E quando eu chego em casa, sem dinheiro, a mulher ainda quer dar em mim! Porque vocês mulheres tão muito bravas!

11.  R: Então, existe extorsão?

 JBS: É, existe, porque a gente já vê. Mas geralmente só acontece quando tem eventos, como casamento..Certo?.. Porque o pessoal vem de fora pra cobrar e cobra 10 reais e tal. Porque isso era pra ter uma situação assim: era pra pagar só a quem é da área! Você, toma conta de uma área! Esse menino que trabalha comigo aí, ele é meu auxiliar.

 

“Não é que a gente seja dono de rua, mas a gente respeita uma senhoria para o outro…(…) eu cheguei aqui primeiro, você tem que me respeitar”

 

12. R: Quer dizer que cada um é responsável por uma parte da rua para trabalhar?

JBS: Não é que a gente seja dono de rua, mas a gente respeita uma senhoria para o outro… Quer dizer, vai inaugurar aqui o shopping. Aí eu cheguei aqui primeiro, você tem que me respeitar. Porque eu fiz a área primeiro!… Então você tem que analisar o auxiliar… Exemplo: ele é meu auxiliar, eu vou embora e ele fica aqui, porque eu confio nele. Porque eu ficava aqui antes desse shopping aparecer. Esse shopping quando começou ia de desde 2 da manha às 11 da noite. E às vezes ficava gente aqui até meia noite, num restaurante que tinha som.“Ó vou jantar ali, volto lá pras 11h”. Aí o cliente perguntava: “Quanto é?”. “O senhor ajeita aí”. E o cliente mesmo dava 5 reais… 5, 10.. Teve uma cara que: “Tome aí pra ajudar”, deu 20 reais. Como tem pessoas também que: “Tenho trocado não”. É uma faca de dois gumes, certo.

13.  R: Os flanelinhas cadastrados são responsabilizados cada um por sua área? O senhor é cadastrado?

 JBS: São… Eu sou cadastrado e sempre foram responsáveis. Desde a reunião lá, do primeiro cadastramento que foi lá no Tavares Buril. Era assim: se acontecesse qualquer problema na área, como acontece por aí de muita gente reclamar de extorsão, ou de você querer dar pro cara 10 reais aí você dá 50 pra ele dar o trocado, mas ele vai embora com o dinheiro. Acontece muito isso aí e já tem várias queixas sobre isso. E à noite é complicado.

 

“Eu já peguei briga, já cheguei a dar dinheiro a cara pra ele não querer ficar aqui na área”

14.  R: Então, se houvesse um novo cadastramento melhoraria? Por que?

 JBS: Melhoraria. Porque, primeiro, não vinha gente de fora e, segundo, que o pessoal que vem de fora não ia poder trabalhar. Você sabe da situação… Porque seria:” Tá fazendo o que aí?”. “Eu trabalho aqui”.”Cadê seu crachá?”. Aí então você saberia de quem cobrar. Você olha o crachá: Jeová. Qualquer problema com seu carro: “Foi com Jeová”. Como acontece quando tem evento…Eu já peguei briga, já cheguei a dar dinheiro a cara pra ele não querer ficar aqui na área.

15. R: Como é a relação com o comércio da área?

JBS: A gente, além da cobrança da prefeitura e do calendário,  tem a cobrança do pessoal do shopping! Que quando começou abrir o shopping aqui, era proibido os dois lados. Eu que falei com o mandatário daí. Pedi a ele, expliquei. Ele: “Mas não interessa para a gente não, porque vai ter garagem”. ”Sim, doutor, mas muita gente não gosta de chegar e colocar em garagem, porque tem aquela taxa, tem justificativa”. Aí, “Vamo ver”. Ficou resolvido. Quando inaugurou o shooping… Foi em duas semanas, eu tava aqui, tava cheio e tinha placa de proibido pra carro no outro lado ali. Aí eu chamei: “Moço, o pessoal tá multando os carros  de frente e o pessoal daqui do shopping quer comprar, tomar café… às vezes tá no trampo e não quer parar no estacionamento, só quer tomar café lá dentro. “E Como é que funciona isso?”. Aí eu expliquei pra ele como funciona a Zona Azul. Aí foi que ele solicitou pra CTTU e botou a Zona Azul pro lado de lá.

“Policiamento existe, mas o policiamento não fiscaliza, principalmente diretamente. E poderia haver uma fiscalização assim, eu acho, junto com a ajuda da polícia”

16.  R: Mas existe policiamento aqui nessa região? Eles também fiscalizam os flanelinhas?

 JBS: Policiamento existe, mas o policiamento não fiscaliza, principalmente diretamente. E poderia haver uma fiscalização assim, eu acho, junto com a ajuda da polícia. “Você é daqui, você é responsável por essa área aqui né!” Aí o cara ali é o responsável. Aí chega um cara de fora, aí eu vou dizer: “O cara tá aqui perturbando”… É pra polícia vim tirar o cara, num é a gente pagar pro cara sair ou obrigar o cara…! Uma vez teve uma briga, discussão aqui com dois flanelinhas… Sabe que o policiamento fez? “Se brigar vou levar os dois!”. Aí eu sou responsável por essa área, mas o cara vem e cobra um carro aqui de 10 a 5 reais e leva o dinheiro do cara! Isso prejudica a gente, que não sabe se o flanelinha é confiável.Principalmente quando é evento grande, carnaval e no marco zero. Quando tem evento assim na livraria, a gente tem como medir. Até o pessoal do shopping fala assim “Não brigue não”.

17.  R: O senhor trabalha aqui durante à noite também?

 JBS: Trabalho. Aqui, só trabalho aqui. Eu sou o principal da área e no cadastramento ficou assim: o responsável da área não é o dono da rua, como o dono do carro bota! Tem um responsável também, porque em todo lugar você tem que ter um responsável! Então, eu sou tratado como dono de rua… A gente não é dono de rua, a gente é responsável pela área…Se o carro aparecer arrombado, aí quem é que vai…”Qual foi a rua que o senhor colocou seu carro?”. “Rua tal!” “Quem que tava lá?”. ”Jeová!” Aí pronto! (Nesse momento, aos 12 minutos da entrevista, um cliente pede a chave ao flanelinha, vai até o carro, abre a porta, pega um objeto. Ao retornar, entrega a chave ao flanelinha num gesto de confiança, que a coloca novamente no bolso sem deixar de falar um minuto conosco).

 

18.  R: Há casos em que vocês são tratados com discriminação? Chamam vocês de que?

JBS: Muitos, muitos. Ah, diz que a gente quer mandar na rua, que a gente não pode cobrar, que isso, que aquilo… Essas coisas, entende?

19.  R: E qual a importância do trabalho de vocês?

 JBS: Olha, é duas razões que eu acho. Se não tivesse flanelinha teria menos vaga. Porque tem gente que chega e, por exemplo, é só uma faixa assim, mas se a gente não arrumar, tem gente que chega e ocupa dois lugares. Tem gente que, mesmo que a gente vá arrumar o carro, diz: “Não, deixa assim mesmo, quem chega primeiro é quem manda!”… Tem outro que diz: “Eu pago imposto”. Eu respondo: “Mas o cara que vai chegar num paga imposto também ?” Eu acho que a outra importância é dar segurança ao cliente. Tem cliente que pára o carro ali atrás, aí sai de 9 da noite, é cheio de “cheira-cola” por aqui essa hora…Aí um deles me chamou: “Leva ali meu carro”. Isso evita de um maloqueiro que passar aqui, apesar de ter câmera na rua, eles não ligam não..Deixar a luz do carro acesa, a gente vai lá chamar.. É essa que eu acho a importância do flanelinha! Há muitos que acham que não… Mas.. cada um é cada um… É uma questão de ponto de vista.

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